Por que só a meditação não é suficiente


Por Chokyi Nyima Rinpoche


Na tradição tibetana, o estudo da filosofia budista é conhecido como “aprender e refletir sobre a visão”. Por meio de um processo de investigação contínua, podemos nos livrar de todas as dúvidas sobre a verdadeira natureza da realidade, conforme descrito pelos ensinamentos budistas. Compreendemos a visão budista, pelo menos em termos intelectuais.
Mas só isso não é suficiente para obtermos a liberação. Para isso, precisamos aplicar nosso entendimento em termos práticos por meio da meditação. Precisamos seguir o conselho de Vasubandhu, um grande mestre budista do século IV dC, que declarou que “uma pessoa disciplinada que estudou e contemplou é capaz de praticar meditação”.
Como diz Vasubandhu, nossos estudos devem ser baseados em um estilo de vida saudável e disciplinado. Precisamos, no mínimo, abandonar os dez atos prejudiciais. Se estudarmos dessa forma, teremos um suporte saudável para as práticas de meditação da tranquilidade e do insight. Então, o que entendemos por meio de nossos estudos pode ser colocado em uso prático, para que a experiência e a realização se desdobrem de dentro.
Tal abordagem para aprender a filosofia budista é particularmente relevante nos dias de hoje. Em todo o mundo, as pessoas pensam de forma diferente do que antes. O acesso à educação e ao aprendizado é muito maior do que antes, e a sensação geral é que tudo está sob revisão e tudo pode ser investigado. Isso vale para a religião, bem como para os assuntos do mundo.
Em geral, a mentalidade contemporânea deseja examinar e investigar as coisas. Para fazer isso, faríamos bem em utilizar os ensinamentos do Buda em geral, e especificamente os tratados sobre Madhyamaka (Caminho do Meio), epistemologia e lógica, e a realização de prajnaparamita, insight transcendente.
Se usarmos esses recursos preciosos para examinar as coisas de maneira crítica, poderemos entender tanto a forma como as coisas aparecem quanto como realmente são. Podemos compreender com precisão os ensinamentos budistas sobre os fenômenos do mundo externo e da mente interna; a base, o caminho e a fruição do dharma. Podemos entender corretamente como tudo isso se manifesta e aparece nos níveis relativos, e também saber o que realmente é no nível último.
Podemos então ficar livres de qualquer dúvida e ganhar confiança. Com tanta confiança, ficamos inspirados e motivados para praticar a meditação. Saberemos como praticar corretamente e, quando o fizermos, a experiência e a realização despontarão em nosso ser.
Nas academias tradicionais da tradição budista tibetana, isso é chamado de “aprender e refletir sobre a visão”. Realmente é uma abordagem acadêmica, mesmo no sentido moderno, pois não há limites para o que pode ser questionado. Se nos sentimos infelizes com a posição de nosso professor, ou de algum grande professor do passado, somos livres para refutá-los. Como seguidores de Buda, vivemos de acordo com sua instrução: “Monges, quando vocês ouvem minhas palavras, devem examiná-las cuidadosamente, como um ourives habilidoso que testa ouro aquecendo, cortando e esfregando. Não aceite minhas palavras apenas por respeito. ”
Além de análise e estudo, a tradição Vajrayana inclui duas outras abordagens mais diretas para perceber a verdade dos ensinamentos, perfazendo um total de três.
A segunda abordagem é chamada de “meditação com base na instrução direta”. Isso se torna uma opção quando o aluno tem confiança no dharma e na devoção ao professor, e o professor tem experiência e compreensão genuínas para transmitir. Nesse caso, não há necessidade de estudos elaborados com base nas escrituras e no raciocínio. Em vez disso, um se concentra nas preliminares comuns (quatro contemplações que mudam a perspectiva da mente) e as preliminares incomuns (quatro exercícios espirituais que são praticados cem mil vezes cada).
Tendo completado este treinamento, a pessoa começa a praticar a ioga da divindade, que leva à realização do estado natural de Mahamudra (O Grande Selo) e Dzogchen (A Grande Perfeição). Para que isso aconteça, um aluno pronto e receptivo solicitará capacitação, ensino dos tantras e instrução oral de um mestre que possua realização genuína. Durante esse processo de transmissão, torna-se possível para o aluno reconhecer a verdadeira natureza da mente, que é a experiência crucial que leva à realização.
Finalmente, a terceira abordagem no Budismo Vajrayana é referida como “a transferência de bênçãos”. Quando um mestre com realização suprema é abordado por um discípulo extremamente talentoso, às vezes nenhuma palavra é necessária. Um mero sinal é suficiente para transmitir a natureza da realização. Às vezes, não há necessidade de qualquer indicação. Simplesmente o fato de que a mente sábia do mestre se volta para o discípulo é suficiente. O aluno reconhece a natureza da mente, aperfeiçoa a força desse reconhecimento e ganha estabilidade total nele – tudo ao mesmo tempo. Isso é possível e já aconteceu com alguns, mas é muito raro.
Hoje em dia, os efeitos da ciência e do pensamento científico estão em evidência em todos os lugares e, para muitas pessoas, a ciência é mais confiável do que a religião quando se trata de questões como a natureza da matéria, tempo e espaço. Não importa qual seja o nosso sistema de crenças ou orientação religiosa, este é um momento para análise e investigação, e a tradição budista possui ricos recursos a esse respeito. Por exemplo, os tratados sobre Madhyamaka e a lógica budista ensinam o método analítico com tremendos detalhes.
Mas se nosso objetivo é ficar livre de dúvidas com respeito às verdades profundas do samsara, do nirvana e do caminho, apenas estudar por um curto período de tempo não será suficiente. Mês após mês, ano após ano, devemos abraçar a vida de um estudioso. De manhã cedo até tarde, devemos ler e analisar os ensinamentos do Buda, combinados com os comentários e tratados dos grandes mestres. Devemos comparar os textos que estudamos uns com os outros e discuti-los e debatê-los com nossos colegas estudantes e acadêmicos.
Hoje em dia, as pessoas apreciam a análise crítica e, quando essa análise deixa de ter dúvidas, o resultado é uma confiança genuína. Então, nossa confiança nos ensinamentos e nossa apreciação pela sabedoria que eles transmitem torna-se muito natural e alegre. Tornamo-nos perfeitamente equipados para colocar os ensinamentos em prática e ganhar experiência e, à medida que a experiência se desenvolve em nossas mentes, surge a possibilidade da verdadeira realização.
Por isso é tão importante estudar e refletir sobre a visão.

Origami Terapêutico

Gaston Bachelard salienta que “é preciso estar presente, presente à imagem no minuto da imagem: se houver uma filosofia da poesia, essa filosofia deve nascer e renascer no momento em que surgir um verso dominante, uma adesão total à imagem isolada, no êxtase da novidade da imagem.” (A Poética do Espaço)

Acreditamos em fenomenologia que, o poetizar e a arte, permite a visualização do aparente do aparente, aquilo que não nos é tão claro à visão. Para criar um lugar próprio onde habitar, é preciso arquitetar, desenhar o mundo que somos nós. A arte é um método eficiente de desenhar o que nos é subjetivo para se tornar real. O real do aparente.

Começaremos nossa jornada através das artes para a criação do lugar próprio com o Origami, um sistema japonês de dobradura. A Professoa Tamara vai ensinar à você como fazer o Tsuru.

Informações diretamente com a Professora Tamara: (11) 95451-2891

Seminário: A Arte de Educar Espiritualmente

No mundo moderno a dúvida sobre o certo e o errado tem levado a cada vez mais confusão sobre como se educar filhos. O sociólogo Zygmund Baumann comenta sobre as dificuldades dos pais na criação dos filhos:

“Ter filhos significa avaliar o bem-estar de outro ser, mais fraco e dependente, em relação ao nosso próprio conforto. A autonomia de nossas preferências tende a ser comprometida, e continuamente: ano após ano, dia após dia. A pessoa pode tornar-se — horror dos horrores — “dependente”. Ter filhos pode significar a necessidade de diminuir as ambições pessoais, “sacrificar uma carreira”, como pessoas submetidas à avaliação de seu desempenho profissional olham de soslaio em busca de algum sinal de lealdade dividida. Mais dolorosamente, ter filhos significa aceitar essa dependência divisora da lealdade por um tempo indefinido, aceitando o compromisso amplo e irrevogável, sem uma cláusula adicional “até segunda ordem” — o tipo de obrigação que se choca com a essência da política de vida do líquido mundo moderno e que a maioria das pessoas evita, quase sempre com fervor, em outras manifestações de sua existência. Tomar consciência de tal compromisso pode ser uma experiência traumática. A depressão e as crises conjugais pós-parto parecem enfermidades específicas de nossa “modernidade líquida”, da mesma forma que a anorexia, a bulimia e incontáveis variedades de alergia.”

O que a educação deveria promover: Uma pessoa com futuro brilhante? Uma pessoa de bem? Paz? Realização Pessoal? Com dúvidas como essas a educação tem falhado em lares e escolas.

A filósofa, Hannah Arendt, também comenta sobre as diferenças entre a educação escolar e a familiar:

“A função da escola é ensinar às crianças como o mundo é, e não instrui-las na arte de viver.”

A espiritualidade sempre foi o caminho básico para o autoconhecimento e o sucesso em todos os sentidos. Com o devido autoconhecimento, o homem pode gerar o mundo que deseja, sempre pleno de consciência.

Nesse seminário trabalharemos com pais e educadores o papel da Espiritualidade na formação do indivíduo. Ao mesmo tempo observaremos a importância de haver espiritualidade nos lares e escolas, mesmo sem haver alguma forma de ligação religiosa. Espiritualidade, além da religiosidade, é o conhecimento de si mesmo, de seus limites, emoções e sentimentos. Ao conhecer a si mesmo, o mundo se abre para nós e nossos filhos!


Facilitadores:

Delcio Kunzler – teólogo, filósofo, realizando a formação como analista junguiano, tendo 10 anos de experiência como padre.

Helio Jinke – psicanalista, membro da Associação Internacional de Psicologia da Religião e da Associação Brasileira de Etnopsiquiatria


Data: 14 de março de 2020

Horário: 9h as 11h30

Investimento: R$80,00

Local: na sede de Garibaldi, avenida Independência, 719, centro

É PRECISO CONFIRMAR COM ANTECEDÊNCIA! VAGAS LIMITADAS!

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Educação Emocional

Elinor Gene Knudsen Hoffman, terapeuta que desenvolveu o sistema de Escuta Compassiva, em um de seus escritos lembra um detalhe importante sobre o ser humano: “de que um grande fonte de violência são as nossas feridas não curadas.”

Basicamente tem sido mais fácil conhecermos nossos sofrimentos e uma forma de violência latente que permeia toda a sociedade, mesmo nas escolas infantis, do que perceber a si mesmo. Raramente entendemos o que sentimos. Confundimos medo com raiva e tristeza com preocupação. Não sabemos ao certo o que se passa dentro de nós. E, caso tenhamos sofrido violência doméstica ou cultural, não entender o que se sente tem levado a onda crescente de violência, como disse a Dra. Gene Hoffman.

O que eu sinto? O que é a depressão que se fala tanto? O que é a raiva? O que é a alegria? Por que me sinto triste? O que é a dor? O que é o objeto de busca mais profunda do ser humano, a felicidade?

Dr. Ludwig Binswanger, o idealizador da Daseinsanalyse, diz que o “ser é fundamentalmente presença, em que o ser em causa é a sua própria possibilidade de ser.”

O professor e monge budista, Walpola Rahula lembra que a “emancipação do homem depende de sua compreensão da Verdade” e que “para quem procura a Verdade é irrelevante saber de onde vem a ideia. A origem ou o desenvolvimento de uma ideia são assuntos para o acadêmico. De fato, para saber a Verdade não é sequer necessário saber se o ensinamento parte de Buda ou de outra pessoa qualquer. O que é essencial é ver o assunto e compreendê-lo.”

O filósofo e psiquiatra, Dr. Karl Jaspers, também comenta que “a Existência só se
pode esclarecer. A realidade deixa de ser o mundo para ser a própria realidade do existir ou o próprio existir enquanto tal, uma vez que do ponto de vista formal, a Existência equivale ao ser-sujeito.”

O ser-sujeito precisa existir. Ser responsável por sua existência. É disso que trata a Educação Emocional: existir.

Será que o que sinto é o que realmente sinto? Por que falo coisas quando não estou pensando? Por que quando desejo algo acabo por fazer exatamente o oposto? Por que sinto essa opressão no peito? Emoção e sentimento são a mesma coisa?

As técnicas que utilizamos no Instituto como base para o desenvolvimento emocional e o autoconhecimento se estruturam nos princípios do Mindfulness, a saber:

  • consciência da respiração
  • conhecer o próprio corpo
  • caminhar conscientemente
  • aplicar atenção plena a cada atividade do dia

A questão aqui é a tomada de consciência. Estar realmente presente, especialmente sobre o que refere a si mesmo. O Dr. Jon Kabat-Zinn, idealizador das técnicas de Mindfulness no ocidente comenta que “grande parte do sistema educacional orienta os alunos a se tornarem melhores pensadores, mas quase não há atenção para nossa capacidade de prestar atenção e cultivar a consciência.” E isso se refere também a auto-educação, algo que não estamos acostumados, pois, “a ética puritana nos deixou uma herança de culpa quando fazemos algo só para nós mesmos.” 

Conhecer a si mesmo, especialmente através de nossas emoções, é um modo de experimentar o mundo!

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Ciência Contemplativa

Existe atualmente muitos centros no mundos dedicados ao estudo científico da contemplação e da meditação na mente e comportamentos humanos. Muito mais do que proporcionar relaxamento e uma base para isso, a Ciência Contemplativa realmente se dedica a entender e a criar novos métodos para a educação em todos os níveis com aplicações diversas.

Os neurocientistas, estudando os efeitos da meditação, contemplação e oração, perceberam que os praticantes tem maior atividade cerebral nas regiões do lobo frontal e do sistema límbico, responsáveis pela cognição e comportamento. Ao mesmo tempo perceberam que a região do lobo parietal, responsável pela lógica, tem diminuídas suas funções. É quando a pessoa alcança a experiência pura, segundo o filósofo japonês, Kitaro Nishida, ou, a experiência mística, segundo diversas tradições.

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A Dra. Sara Lazar (PHD), pesquisadora do Programa de Pesquisa em Neuroimagem Psiquiátrica do Massachusetts General Hospital , diz em uma publicação na “The Harvard Gazette” que, “embora a prática da meditação esteja associada a uma sensação de tranquilidade e relaxamento físico, os praticantes há muito afirmam que a meditação também proporciona benefícios cognitivos e psicológicos que persistem ao longo do dia”. (para saber mais acesse Eight weeks to a better brain)

A figura abaixo mostra a espessura da ínsula e do córtex pré-frontal dos praticantes e não praticantes de meditação envolvidos na pesquisa.

Na segunda figura é possível observar o impacto da meditação e do Yoga sob a inteligência.

A terceira apresenta a mudança na concentração da massa cinzenta no hipocampo.

A quarta imagem apresenta mudança na densidade da massa cinzenta na Amígdala.

A última imagem apresenta as regiões com aumento de massa cinzenta após oito semanas de tratamento envolvendo as técnicas de Mindfulness.

Mesmo estudiosos cientistas que se dedicaram aos estudos das praticas contemplativas e meditativas puderam entender que nossa ciência, no entanto, ainda não tem condições de explicar nem mensurar todas as mudanças possíveis. Isso, no entanto, não impede que estudos aprofundados sejam feitos. Um dos maiores estudiosos no assunto, provavelmente, um dos pioneiros, foi o psiquiatra, Dr. Tomio Hirai. Em 1966, por exemplo, o médico japonês publicou um tema interessante, “An electroencephalographic study on the Zen meditation”, que você pode baixar aqui… EEG_and_Zazen.

Porém, entendemos que qualquer situação pode promover mudanças em nosso cérebro, mesmo experiências traumáticas, como um tiro na cabeça, por exemplo. Porém, isso por si só já é um argumento importante sobre a eficácia dos estudos, pois, muito além do processo de meditar que envolveria práticas específicas e direcionadas, a contemplação entra no campo do que é natural ao homem, que não exige mudanças de comportamento aparentes, mas, que as promovem como resultado ao passo que o individuo encontra seu ritmo de observação interna e externa.