Sobre ser pessoa

SOBRE SER PESSOA

(Dr. Helio Laureano)

 

Os antigos sábios da Kabbalah lembravam que a realidade não possui forma, pois, assim como a forma, a realidade é um produto da imaginação humana.

O ser humano produziu uma série de realidades com as mais variadas formas possíveis. E à partir dessa criação um sem-número de invenções surgiram. O homem pôde chegar a Lua. Produzir o celular. Tratamentos por radiação. Idiomas. Nanotecnologia. E uma infinidade de coisas. Porém, em meio a tantas criações, não conseguiu manter-se ileso e perdeu sua identidade, sua essência primordial.

Esse pequeno estudo tem como objetivo analisar a criação da pessoa, do indivíduo e do sujeito. Mais do que uma avaliação semântica, buscamos entender o surgimento do homem, tal como ele se manifesta nos dias atuais.

Entre as muitas expressões que tratam do homem, encontramos três palavras extremamente comuns: indivíduo, sujeito e pessoa. Embora apresentem correlações, há um precipício em suas classificações.

 

INDIVÍDUO: vem do latim individuus. Aquele que não pode ser dividido.

 

SUJEITO: vem do latim sujectus . Aquele que está abaixo, que é inferior.

 

PESSOA: vem do greco-romano persona. E denota a máscara usada no antigo teatro grego. Refere-se ao papel atribuído a essa máscara. Personagem.

 

Embora muitos filósofos e pensadores tenham dedicado algum estudo ao entendimento das origens do ser humano, quatro pessoas se destacam: São Thomas de Aquino, Locke, Kant e Scheler.

Muito interessante notar que expressões tão comuns na linguagem moderna possam guardam importâncias semânticas tão diferentes. E, muito mais do que simplesmente compreender sua etimologia, é essencial compreender como tais palavras formaram o homem que somos hoje.

Uma grande surpresa ( e não uma crítica) é a descoberta de que a palavra pessoa tem origem religiosa cristã. Fato certamente importante pois, como diria o teólogo e monge, Charles André Bernard, “a religião aparece sempre associada a educação, aos ritmos de trabalho e de descanso e à cultura geral”.

Historicamente, a palavra persona assinala a linha de demarcação entre a cultura pagã e a cultura cristã. Antes do Cristianismo não existia nem em grego nem em latim uma palavra que exprimisse o conceito de pessoa… O Cristianismo criou uma nova dimensão do homem, isto é, aquela da pessoa. (BENTO, 2011, p. 75)

 

Esse detalhe é extremamente complexo do ponto de vista existencial, pois mesmo a História recorda que o homem moderno criou suas bases humanas no período conhecido como axial quando grandes conhecimentos passaram a surgir, como o budismo, confucionismo, judaísmo, zoroastrismo, entre outros, mantendo suas marcas até hoje na humanidade. Como descrito na pesquisa La Construction Historique De Le Concept De La Personne Humaine, esse período é essencial, pois enuncia “os princípios e diretrizes fundamentais da vida que influenciam a construção do pensamento humano até os dias atuais.”

Nesse período o homem, a pessoa, o indivíduo e o sujeito referiam-se ao mesmo ser, alguém dotado de qualidades essenciais e naturais. Confúcio, inclusive, chama de homem santo . Porém, com o passar dos anos, e, sobretudo, no período do florescimento da Igreja Católica, a pessoa passa a ser um irmanado, um filho de Deus, dependente de Seu Criador. A pessoa está vinculada à “exigência cristã de amor universal”.

Embora, após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a noção de pessoa esteja relacionada ao conceito de pessoa humana, o homem vive uma dualidade cada vez mais gritante. E, desta forma, percebe-se impedido do processo de ser um individuus, indivisível, de alcançar o idela da individuação conforme explicado pelo Dr. Karl Gustav Jung, para sempre estar em busca de ser. O daseins (vir a ser)) de Husserl e Heidegger. O ser humano está preso a uma ideia de dependência em que o, aparente, livre-arbítrio, o conduz a uma prisão sem a luz do dia. O homem não pode ser por si.

A desconstrução é um dos maiores desafios dentro do processo da individuação. Mas é o caminho mais profundo para a redescoberta do ser. Os adultos podem se beneficiar, mas, certamente, as crianças encontrarão maiores possibilidades, pois suas mentes estão limpas, abertas e individuadas. O processo de tornar-se culturalmente uma pessoa na sociedade a leva a torna-se sujeito no palco da existência. É preciso que o homem reaprenda que é mais do que a persona que está instaurada nos inconscientes. É um ser individual.

Mas, como o homem aprende? Como algo pode fazer sentido a ponto de gerar uma mudança permanente em padrões de pensamento? Como a vida pode ter sentido?

Essas não são perguntas novas. E, embora muitos estudiosos tenham dedicado suas vidas a buscar e encontrar respostas confiáveis e plausíveis, tudo o que precisamos saber está sempre conosco. De alguma forma, todas as nossas dúvidas são existenciais.

São muitos os sentidos usados pelos humanos para compreender o mundo, desde o ventre materno. A neurociência, por exemplo, tem buscado compreender de forma empírica os caminhos dos sentidos. A antropologia e a psicologia são ciências dedicadas a observação e a dedução. Todas as ciências usam métodos próprios com princípios semelhantes. A ciência contemplativa tem princípios semelhantes, mas com objetivos diferentes. Observar sem manipular e classificar.

As tradições científicas orientais estudavam o homem com os recursos que eram compatíveis ao momento, especialmente, a observação paciente e detalhada. O grande educador contemplativo, Confúcio, lembrou sobre o ser humano:

“O homem ao nascer é, por natureza, radicalmente bom. Criar e não educar é um erro dos pais. Pedras não lavradas não podem formar nada útil.”

Não havia no momento em que Confúcio cunhava suas teorias nenhum questionamento sobre detalhes, mas, uma visão global, ampla e não comedida. Por exemplo, não questionava o significava do que é ser bom, mas afirmava que o homem nasce assim. Liang 良, a expressão chinesa para bom, é muitas vezes traduzida como bom coração. Seu sentido mais literal tem o significado de  agradável . A expressão também tem relação com a ideia inata. Um modo de ser naturalmente agradável. Mas o detalhe que deve constar nessa explicação é que, ser naturalmente bom, tem a ver com o auto-tratamento generoso e gentil. O homem é primeiramente gentil consigo, e isso não é uma forma de egoismo.

Os pais deveriam, segundo Confúcio, ajudar seus filhos, moldar, usar suas características agradáveis inerentes com o objetivo de não perderem sua essência. Para tanto a educação precisaria ser prática, e um dos seguidores da Grande Escola de Confucio, séculos mais tarde, o Professor Wang Yangming, destacou esse aspecto usando a mesma expressão cunhada por seu professor original, com apenas um acréscimo.

A expressão 梁志 Liang Zhi destaca a ideia de que o homem entenderá o sentido de todas as coisas ao passo que descobre e realiza. Um ato contemplativo do conhecimento. É o presente absoluto que encontramos na obra filosófica do pensador japonês Kitaro Nishida.

A observação pura é o que conduz o homem ao seu centro, a sua individuação. Porém, Confúcio destaca que não é preciso que o homem redescubra isso, pois, a criança, se continuar em seu caminho natural, já está centralizada e individuada. A cultura é que distancia o homem de seu centro.

Ao mesmo tempo, ele destaca o fato de que, se as características inerentes não forem cultivadas, acabam por estagnar-se e não gerando a movimentação necessária para a adaptação ao mundo já estruturado e conflitante. O presente absoluto como experiência individual e evolutiva.

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